A raiva

A raiva é uma emoção primária, ou seja, é uma emoção evolutiva partilhada por indivíduos de todas as culturas e ligada a processos neurais e fisiológicos específicos. É, por isso, uma emoção instintiva, pois não é necessário grande processamento cognitivo para a sua ativação. Para alguns pode revelar-se uma emoção negativa, pois para além de ser inconveniente, pode causar prejuízos. Porém, ao reforçarmos esse caráter pessimista da emoção, reduzimos a possibilidade de ensinarmos às crianças formas de acolher e lidar com a própria à medida que amadurecem. Na verdade, estas emoções "desagradáveis" são bastante úteis pois obrigam o indivíduo a afastar-se de certas coisas ou situações que lhe poderiam provocar danos ou ser perigosas para a sua integridade física e mental. A raiva faz-nos adotar uma posição de fuga-luta, isto é, ou escapamos de certa situação, ou temos o instinto de luta (o que não significa necessariamente luta física, já que também se pode manifestar de forma verbal). Acaba, por isso, por ser uma emoção protetora.

O facto da raiva não ser uma emoção "negativa", não implica que não possa trazer consequências negativas. O facto de alguém estar com raiva, pode levar essa pessoa a agir contra os seus princípios, o que pode prejudicar, por exemplo, as suas relações. Aliás, a raiva pode provocar consequências negativas para a saúde. Quando experienciamos tal emoção, ocorre um aumento do fluxo da hormona do stress (cortisol), que por consequência pode destruir os neurónios associados à memória de curto prazo e à capacidade de julgamento, além de enfraquecer o sistema imunológico

Nem todas as vezes que sentimos raiva ocorrem devido a uma real ameaça, devido ao facto de que, por vezes, essa emoção surge da própria pessoa, e não do ambiente. Podemos usar o exemplo dos ciúmes, que é o medo de perder alguém que se ama. Ao sentir esse medo, geralmente o indivíduo passa a ter raiva da outra pessoa, pois passa a vê-la como um rival — uma ameaça. No entanto, isso muitas vezes vem da cabeça da própria pessoa.

Existem várias situações do dia-a-dia que nos provocam raiva, como por exemplo não conseguir resolver um exercício que estamos há muito tempo a tentar terminar. Nestas situações, sobe o nível de adrenalina e noradrenalina e aumenta o ritmo cardíaco. A raiva é provocada pela frustração, ameaça ou mal e todos os seres humanos são capazes de a percecionar ou reconhecer. Tem capacidade destrutiva, e também autodestrutiva. Teve um efeito semelhante e complementar ao medo visto que evoluiu positivamente, permitindo ao indivíduo não só autoafirmar-se mas também defender-se de vários tipos de situações (agressão, marcar território ou escapar de situações perigosas). Ao longo do tempo foram sendo criados mecanismos (adaptativos) para controlar e canalizar esta emoção de modo a não se tornar numa ameaça para a sociedade, visto que mesmo que esta seja útil para o indivíduo, pode ser perigosa para a vida em sociedade.

Os trabalhos de Ekman mostraram que esta é a emoção que dá lugar a um maior aumento combinado do ritmo cardíaco e da temperatura das mãos. Expressões faciais reconhecíveis são a descida e contração das sobrancelhas, os lábios tensos e apertados, a dilatação das fossas nasais e pálpebras semicerradas

As regiões intervenientes do cérebro são: tecidos do sistema límbico (incluindo a amígdala) que desencadeiam a raiva e o córtex pré-frontal que tem uma função reguladora ou modeladora do impulso. Verificou-se que pessoas e animais com lesões ou tumores na região do septo, a nível do córtex do ângulo anterior, mostram-se mais irritáveis e apresentam expressões de agressividade descontrolada.

Estudos de neuroimagem sobre pacientes com problemas de comportamento violento repetitivo e também sobre assassinos permitiu perceber que aqueles com historial violento tinham uma menor atividade nos córtex medial temporal e nos córtex pré-frontal. Este fenómeno parece indicar uma inibição da zona de tomada de decisões racionais. Registou-se, também, que os assassinos impulsivos apresentam uma menor atividade a nível do córtex pré-frontal e maior funcionamento das regiões subcorticais direitas (incluem a amígdala, hipocampo e tálamo), ou seja, apresentam uma menor interconexão entre o córtex pré-frontal e as regiões subcorticais.

Em conclusão, apesar da raiva ser vista negativamente por grande parte das pessoas, é uma emoção bastante importante que nos protege e nos faz reagir em momentos considerados perigosos.


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